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24.11.11

maré alta

tenho tido muitos sonhos com o mar. certamente isso já havia acontecido uma ou outra vez antes na minha vida, mas esses tantos, recorrentes sonhos de agora, são diferentes. acho que minha relação com o mar mudou, mesmo estando de costas pra ele a maior parte dos meus dias. e acordo feliz da vida desses sonhos - o mar entrou no meu álbum de símbolos, faz mais parte de mim agora, ahhhh, deixa essa cidade me benzer!

ontem à noite foi assim: voltava da praia, fim de tarde. a maré cheia vinha com violência para a areia, e meu caminho de volta estava estreito. eu estava entre as ondas batendo bravamente, como fazem em rochas, e uma cerca de madeira, agora atingida pelas ondas altas. mas o mar vinha e ia - não é assim que ele faz? e depois de uma onda forte ele recuava, e me deixava caminhar em paz. quando uma onda se aproximava, eu logo aprendi que o melhor a se fazer era parar, me segurar na cerca, e esperar a onda passar. o mar recuava, eu avançava mais alguns passos, e me segurava novamente. lá na frente a cerca acabava, e a areia era larga e espaçosa, as ondas mais suaves. sabia que no meu ritmo chegaria lá, mas deveria não desesperar debaixo das ondas. e assim fui levando, pancadas e calmarias, sabendo a hora de parar e andar, tranquila que no meu horizonte havia um caminho mais suave.

22.7.10

A lembrança de um espaço

Minha cômoda estava cheia, estufada. Nada daquilo eu queria jogar fora - tudo era parte essencial do meu guarda-roupas. Mas aquela dificuldade para me vestir todo dia pela manhã me tirava a paz.

Então olhei para o lado, para o armário embutido, que sempre julguei pequenino e há tempos nem tentava encontrar mais um espaço, pequeno que fosse, ali. Então olhei para ele (por que não?) e encontrei espaço; espaço de sobra para tudo o que eu tinha. Espaço que estava sempre ali, eu só havia me esquecido.

Comecei a tirar bolos de roupas das gavetas da cômoda e distribuí-las no armário. Tudo cabia ali, espalhado, espaçado, e eu conseguia acessar facilmente todas as minhas blusas, saias, calças...

Acordei.
Estou cavucando algumas peças amassadas esquecidas nos fundos, mas sei que, no meu guarda-roupas, há espaço para elas.

16.7.10

Um dia e um sentimento

Tem um nó na minha garganta que é teu. Não se preocupe, tudo caminha bem. O trabalho por vezes me tira o sono, sabe? Outras horas me oferece recompensas antes inimagináveis, e estou cada vez mais acostumada com a idéia de viver assim. Sinto falta de conversar contigo sobre ele, mas para cada interrogação a me pentelhar há um ponto final que você viria colocar, e eu sozinha preencho as lacunas. Vejo um desafio grande pela frente, e o aceito, enquanto tiro o abridor da gaveta e a cerveja da geladeira. Só uma gelada ao fim do dia, pra relaxar. Hoje enxergo o desafio que é sua ausência, e também a aceito. Além da sua inevitabilidade, hoje, eu a aceito. Aceito tudo o que fez comigo. Todas as feridas que me deixou. Aos poucos as incorporo em meu corpo, estou inclusive o aceitando melhor. Lembro que me falava o quanto eu era bonita, gostaria que me visse agora. Olha, desculpe te dizer, mas à sua falta não foi difícil me acostumar. Fiz novos amigos, conheci novos lugares, e em muitos momentos estive feliz por ter seguido meu caminho, diferente do teu. Então abro um grande sorriso, quase sempre acompanhado de uma tristeza. Eu não queria te falar, mas sempre que sorrio feliz me lembro de você. É difícil sorrir sem você me ver, tenho feito muitas coisas sem você me ver. Talvez hoje se me encontrasse já me acharia uma estranha. Eu mudei, tenho mudado. Só posso torcer para que ainda gostasse de mim, mas seu olhar de confiança está tatuado nas minhas lembranças. Hoje, aceito mudar longe dos seus olhos. Mas esse nó, símbolo dessa tristeza, esse nó até hoje não fazia parte de mim. Era um intruso a atrapalhar os dias. Maldito nó, a me relembrar dessa ausência à qual, eu já lhe disse!, já havia me acostumado. Até aquela noite, uma noite como todas as outras, na qual abri os olhos e não vi você. Então chorei, toda a saudade que sinto, todos os dias. Eu sei por que não consigo dizer a mais ninguém o tamanho da falta que me faz. É que nem eu sei direito. Chorei, e depois não soube mais como parar. É muito solitário viver nós duas sozinha.

13.7.10

Encontros na madrugada

"Devia estar nos meus sonhos, como sempre está, quando minha consciência desavisada esbarrou em você na minha cama."

30.4.10

"Por que não?", ou "De repente me sentindo ousada"

Eu gosto dos meus sonhos, por isso conto tantos deles por aqui. Sinto um respeito e um carinho imenso por eles, e meus caderninhos de cabeceira onde há anos os anoto, são minhas caixinhas de jóias.

Como uma neta que ficaria horas vendo as jóias de sua avó, eu vez ou outra passo horas em frente aos meus sonhos. Cada um deles é um símbolo de um momento, e abro sorrisos e sorrisos ao recordá-los. Já pensei muito se deveria ou não compartilhá-los aqui. É que, não sei você sabe, mas eles são incrivelmente pessoais. Contam as coisas mais importantes sobre mim. Essa dúvida se torna então um dilema existencial - o quanto de mim eu quero compartilhar? Sendo eu a dona de um blog, sabe-se de antemão que algum bocado eu não me importo, e gosto, de botar pra jogo. Eu gosto de pessoas e suas histórias. E sou a pessoa mais acessível para mim mesma (aliás, será?), então nesse sentido sou bem auto-entretida. Como uma pesquisadora em campo o tempo todo. E me lembro de um amigo dizendo que não teria coragem de escrever como eu - o que me causou sentimentos conflitantes, um arrependimento imediato, mas depois uma alegria. Ele o disse como um elogio, e sempre que essa dúvida me aflige de novo, eu só penso: por que não? E posto.


Enfim, isso era só pra dizer por que falo tanto dos meus sonhos.
Um dia desses contei de maneira bem camuflada uma série deles, que me aconteceram há algumas semanas. Sonhos onde ficava em paz com as mulheres que levaram à frente os relacionamentos que eu deixei para trás. Cada dia da semana sonhei com uma delas, nós conversávamos tranquilamente, até que em certo momento fluentemente concordávamos "estamos bem, né?". E, assim, em um segundo depois de de anos, eu sentia paz. Me lembro bem da estranheza de beber, conversar, e rir com aquelas que deveriam ser minhas rivais, mas tinha uma voz dentro da minha cabeça de mim dentro da minha cabeça que se perguntava: por que não?

Outro dia desses, em sonho encontrei uma família na beira de um rio, na fazenda. Eles viviam dentro de uma pedra de rio, em sua beira, numa improvisada morada. Eu fazia um convite a eles, simples para mim mas capaz de mudar toda a vida daquela mãe, pai e filho - por que eles não se mudariam para uma casinha simples do outro lado do rio, no topo do morro? Ela acabara de ficar disponível, e eu sabia que essa idéia era nova, aquele povo jamais teria vivido em uma casa decente, e em outro momento essa idéia poderia nem surgir, mas a casa disponível e o povo necessitado me trouxeram uma só pergunta à mente (a mente da mente): por que não?

Não cheguei a ver a mudança. Acordei antes. Mas espero ansiosamente pelo próximo capítulo.




(Talvez eu corte o cabelo amanhã pela manhã)

17.4.10

Pazes

Ficar leve, tarefa difícil.
Quantos livros, cursos e terapias são necessários para nos lembrar de parar, respirar, prestar atenção no nosso corpo, e ser?
Um sábado inteiro e alguns bons dólares depois, cá estou. Leve.

E assustada. O leve me assusta, o imediato me encharca, e eu rio de nervoso. De alegria, mas de nervoso também. E um pouco da minha cara - meu senso de humor anda bem leniente, rindo à toa de tropeços bestas na rua. Rindo só. Rindo chorando. Rindo de mim e dos outros, uma menina alta de casaco de pelúcia rosa entra no metrô, eu e minha vizinha nos olhamos de rabo de olho e rimos. Sem sacanagem, sem maldade, mas aquela moça riu comigo, e duas desconhecidas então compartilhavam o que logo virou uma crise de riso. Às vezes gargalhadas, muitas vezes inconvenientes. Meu Deus, eu estou rindo inconvenientemente.

Respiro entre uma gargalhada e outra e sinto o medo de novo. Eu reparo na leveza, desconheço essa leveza. E nada me assusta mais que o desconhecido.

Agora abro um sorriso desafiador. 

Todo dia tenho acordado da mesma maneira - de sono interrompido, às sete horas da manhã (então sete horas da manhã é igual em todo lugar?). Então me lembro dos meus passeios inconscientes, que essa semana, apesar dos seus caminhos diferentes, sempre terminam no mesmo lugar. Uma leveza estranha, um estranhamento gostoso. É que tenho visitado as mulheres que levaram em frente os relacionamentos que eu deixei para trás, cada noite uma diferente. Conversamos, rimos, e ficamos bem. E cada manhã o mesmo riso desaforado de estranhamento gostoso.

Faço as pazes comigo. E sinto o pequeno desconforto de amarras desatadas, leveza. Estou consciente dele.
Sorte que tenho meu bom humor pra seguir dando umas risadas desse andar desengonçado!

17.3.10

Terceiro Olho

Foi num sonho que enxerguei.

Dentro do meu olho direito, no próprio globo ocular, nascia uma bola, outra. No começo do sonho era pequena, avermelhada, como uma infecção que acaba de acontecer. Tem um ar de novidade, e sua novidade incomoda. 

Como uma daquelas certezas de sonho, eu já sabia: era um outro olho.

No sonho eu ponderava "isso deve ser bom, terceiro olho é pra ser uma coisa legal", mas um outro sentimento foi imediato.

"E se ele cobrir a minha pupila?"

Eu então iria deixar de enxergar com um de meus olhos. Este, o direito, que me acompanha há uns bons anos, com seus cones e bastonetes, me ajudando a fazer algum sentido do caminho por onde passo. Um novo olho de enxergar nascia, e com ele, tudo novo. Ia virar uma cega, ao mesmo tempo em que começaria a enxergar tudo novo.

Do sonho, só lembro o medo. Um grande medo. O apego ao velho olho direito.

Me senti sem controle. Meu modo de enxergar as coisas está mudando, e eu não sei enxergar com essa bola primitiva-forma-de-olho. Como uma infecção, só me restava ver acontecer. E torcer pra dela sair uma imagem bem bonita, quem sabe mais colorida?

Eis que hoje, numa morna terça-feira de primavera, tenho curtido enxergar

31.3.09

Bichos, escamas, mãos e pincéis

Colagem da famosa artista internacional Tia Sandy.

Inspirada no texto-menina-de-13-anos do Hélio, decidi sentar e escrever o que desse na telha. Não aguentava mais rever a velha história contada no post anterior, francamente, porque não me traz boas lembranças. Mas não conseguia pensar em mais nada, nenhuma idéia forte, nenhum tema central para desenvolver um texto coeso.

Eu cresci ouvindo das professoras de redação: você tem boas idéias, falta coesão.

Mas às vezes eu mesma não sei onde encontrá-la. Talvez uma esperança, que o leitor capte algo mais, me trouxe aqui. Ou talvez a esperança seja que eu faça sentido ao ponto de eu mesma me entender. Ou só um desprendimento pra variar e fé de que, mesmo esquisito, talvez por ter saído de mim valha a pena. Fé ni mim.

Um dia me lamentava por não saber desenhar. Aliás, isso é prática comum aqui em casa. Sinto vontade louca de sentar e pegar o lápis, ou as tintas, e fazer minha arte. "Mas eu não tenho técnica", eu me digo. Aí me lembro da Momô - "quem disse que precisa de técnica?". Mas quando vi, já foi. Já estou ligando a televisão. E sigo com aquele bichinho andando por debaixo da minha pele pronto pra sair.

Mas na sexta-feira passada foi diferente. Eu dormi, e em pleno sono me livrei desses bichinhos. Sonhei com eles, vários deles. Eu estava na cama da minha mãe, o lugar mais seguro do mundo, e como de uma bolsa de canguru, bem debaixo da pele, eu via bichos, vários. Pareciam cobras, mas eu sabia que não poderia ser verdade. Alguém gritava "peixes!", por causa das escamas, e eu respondia: "platelmintos!" (secretamente duvidando muito de mim mesma - platelmintos com escamas?).

Eram dezenas de cobras-vermes, e eu enojada os tirava de dentro do corpo a mãozadas. O tamanho do asco era o tamanho da garra, eu não deixaria nenhum ovinho pra contar a história.

De manhã, o nojo prevaleceu nas primeiras horas. Desconforto, estranhamento. Mas logo depois veio a lembrança sensorial das cobras se rebatendo empunhadas por mim, e o poder... ah, inexplicável.