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24.11.11

maré alta

tenho tido muitos sonhos com o mar. certamente isso já havia acontecido uma ou outra vez antes na minha vida, mas esses tantos, recorrentes sonhos de agora, são diferentes. acho que minha relação com o mar mudou, mesmo estando de costas pra ele a maior parte dos meus dias. e acordo feliz da vida desses sonhos - o mar entrou no meu álbum de símbolos, faz mais parte de mim agora, ahhhh, deixa essa cidade me benzer!

ontem à noite foi assim: voltava da praia, fim de tarde. a maré cheia vinha com violência para a areia, e meu caminho de volta estava estreito. eu estava entre as ondas batendo bravamente, como fazem em rochas, e uma cerca de madeira, agora atingida pelas ondas altas. mas o mar vinha e ia - não é assim que ele faz? e depois de uma onda forte ele recuava, e me deixava caminhar em paz. quando uma onda se aproximava, eu logo aprendi que o melhor a se fazer era parar, me segurar na cerca, e esperar a onda passar. o mar recuava, eu avançava mais alguns passos, e me segurava novamente. lá na frente a cerca acabava, e a areia era larga e espaçosa, as ondas mais suaves. sabia que no meu ritmo chegaria lá, mas deveria não desesperar debaixo das ondas. e assim fui levando, pancadas e calmarias, sabendo a hora de parar e andar, tranquila que no meu horizonte havia um caminho mais suave.

16.6.11

Mais uma casa, vinho e pedra

E de repente você se vê tomando uns goles de vinho num copo de cerveja do bar da esquina, deitada (praticamente) no chão do que sabe, daqui a bem pouco, será sua casa em muitos outros sentidos além do nome no contrato. Desde o mês passado tenho o nome num contrato de um apartamento no décimo quinto andar de um prédio no Rio de Janeiro. Da janela, vê-se uma pedra grande e tenho o privilégio das copas das árvores me fazendo companhia na altura dos céus. Tenho velas, escorredor de pratos, uma espátula. Já me acostumei com o caminho até o metrô - escapo dos buracos na calçada. E de repente, num momento como agora, me vejo tomando vinho nessa que, um dia, será minha casa em muitos outros sentidos além do meu nome no seu contrato.

11.5.11

Uma diferença

Aí a gente larga tudo e recomeça - são tantas as fases do recomeço. A gente se perde, e até se encontrar o caminho é pedrada. Se somos em relação a algo outro, quando quase tudo ao seu redor fica, ou vai, é inevitável sobrar pouco - minto - pouca segurança no que fica. Já previa tudo isso.
Já sabia, sempre soube, já descobri outras quatro vezes na vida, pelo menos, que da vida a gente não foge, ela te segue onde for. Ela me dizia que meu corpo é minha casa, dessa não adianta fugir, então quando precisasse de repouso que me quietasse dentro de mim. Já me senti em casa longe de tudo conhecido, já estive desconfortável sob as sombras das mesmas árvores que me viram nascer.

Mas há diferenças, cansei de achar que tudo é o que eu levo e a alegria é fácil onde eu quiser que seja. Pode ser, mas uma cidade não é igual a outra, e como combinações quase químicas eu+cidade, cada cidade com suas propriedades, formamos um composto diferente. Hoje pela primeira vez eu vivi uma diferença, uma simples alegria carioca, que poderia um dia ter sido uma alegria brasiliense ou uma alegria novaiorquina, mas nunca essa alegria carioca da tarde de hoje. Voltava da médica, decidi pegar um taxi pois o motivo da visita era um machucado no pé, herança de um carnaval pernambucano que agora já passou faz tempo. O motorista perguntou se iríamos pela praia, eu lhe pedi que sim, o dia estava bonito. Ele escutava João Donato, por consequência eu também, e então a música não era minha - viu? Era a música dos outros que agradava os meus ouvidos (eu jamais colocaria bossa nova pra tocar, que clichê). E o fim do dia, o mar e o Rio de Janeiro ao som de João Donato foram um tapa na cara e me lembraram que escolhi passar por todas as dores e alegrias dessa vida, que não vive sem mim, no Rio de Janeiro, e que ela será diferente, mais quente e ensolarada, por se passar aqui, no Rio de Janeiro.

20.3.11

Um pensamento e um sentimento

Na enseada de Botafogo penso que a vida não é mesmo pequena, e me aperta a boca do estômago.