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5.2.11

Intuição e Pressão

A intuição some, tímida, quando pressionada a fazer um bom trabalho. Se o trabalho só será bom com intuição, e ela não funciona com expectativas, que beco sem saída mais ingrato, não?
Parece a inspiração quando vê um prazo.
Me dizem para escrever minha dissertação com intuição, para deixar o que estiver no texto falado por outras pessoas vir até mim, e eu então "só" captarei aquilo que achar que fala mais alto (sim, sei, é um jeito d'eu falar também - talvez a intuição também se assuste com o tamanho desse desafio de colocar palavras na boca de outros).
Mas a vida é cheia dessas coisas de burocracia e tempo e prazos e datas, então me vejo obrigada a tentar educar minha intuição para trabalhar no meu tempo, que é o tempo do mundo ao meu redor.
Tenho que entregar o papel assinado na secretaria até às 2 horas da tarde, e depois pegar uma cópia de outro documento em outro escritório às 4. Nesse meio tempo devo escrever, e deve ser intuitivo, sem-com pressão. Depois tenho duas horas antes do jantar para trabalhar novamente, com-sem pressão, para depois encontrar várias pessoas por 15 minutos cada e escolher, intuitivamente, quem será um bom novo companheiro de casa para as minhas atuais companheiras de casa. Deve ser certeiro e oportuno, na hora certa. Com-sem pressão.

Muito complicado esse negócio de intuição com prazo e hora marcada.

29.1.11

Terceiro mês

Hoje é meu dia no bar do escritor, mas dessa vez não consegui produzir um texto especial só pra lá. Vivi hoje aquele pequeno inferno que só os que se atrevem a escrever conhecem: a merda dos 15 primeiros rascunhos, dessa vez sem um final feliz. Não vou mentir e dizer que tô feliz agora, não. Tô experimentando aquele leve desespero (sou só eu?), achando que talvez não consiga nunca mais sentar e escrever. Sei que daqui a pouco, quando menos esperar, sai alguma coisa de novo, e assim é a vida, na escrita e fora dela, cheia de nós e entre-nós, safra e entre-safras.
(Ó a escrita fazendo jus à vida à qual pertence, toda desobediente e free-style)

Gosto de escrever numa sentada, e acho que ando sentada demais pra escrever algo que preste.

Decidi republicar um texto daqui do alegria difícil, lá no bar do escritor. Aí vocês aproveitam pra dar uma passeada por lá e conhecer alguns outros sofredores escritores como nós! :)

10.8.10

Um update

4:28 de uma terça-feira quente. talvez o número de palavras não tenha mudado em nada, mas o trabalho sim. tá rendendo, tomando alguma forma.

eu escrevo, recorto, deleto, copio. aí olho pra cima e me sinto grata pela biblioteca pública me oferecer esse ambiente tão propício e inspirador. logo volto o olhar a tela e já enxergo outra maneira de dizer aquilo que queria dizer, e só interrompo esse pensamento pra ver o horário do cinema, porque pretendo finalmente assistir El Secreto de Sus Ojos depois do dia bibliotecando. decido vir compartilhar com vocês, que me lêem e apóiam, porque essa vida de pensadora solitária pode ser muito legal mas muito chata às vezes, e eu não seria nada sem os amigos.

... aí começo a pensar nos agradecimentos. mas não, ainda não. :)

4.8.10

Dissertar é viver (ou viver é dissertar)

Faço no trabalho como faço na vida: quando a confiança está alta, a importância do medo é diminuída e eu escrevo páginas de uma vez. Se o medo toma conta, paraliso. Ligo o computador, me atrevo a iniciar um parágrafo, mas não há nada de mim que eu ache que valha a pena. Procuro referências, procuro ajuda em outros autores, mas nenhum deles escreve tin tin por tin tin como devo pensar, como devo escrever, o que é certo e o que é errado. Meu nível de confiança no sentido que faço disso tudo varia junto comigo. Aí desisto, jogo tudo pro alto, e digo a mim mesma "esquece essa ilusão de fazer um bom trabalho e acaba logo com isso". Escrevo uma merda qualquer, e no dia seguinte por vezes acho melhor do que esperava. Então me relembro que na dissertação, assim como na vida, não quero fazer de qualquer jeito não.
Aguento os dias de silêncio, e sigo abrindo e fechando computadores, escrevendo e me calando. E postando textos para desabafar no blog. :)

Algumas Palavras

Palavras de ontem são do idioma de ontem
E as de amanhã aguardam outra voz.

2.8.10

Uma ficção

"No entanto (...) me parecera terrivelmente necessário escrever assim que entrei no quarto, pois as conversas que não tive com ela me emocionam mais do que as conversas que tivemos de fato, e a 'Ela' imaginária ocupa um lugar intenso no meio da personalidade dela que a 'ela' verdadeira jamais ocupará"

9.7.10

Domesticada

São tantos os pensamentos soltos e livres na biblioteca. O caminho não é curto até aqui - mas ao primeiro respirar sentada em minha cadeira compreendo o por que a viagem vale a pena. Esse pensar coletivo em silêncio deve atrair meus próprios pensamentos por osmose (ou seria difusão? de que são feitos os pensamentos?) para esse ambiente vazio, mas ah!, não há vazio algum nesse imenso pé direito e seus lustres. De mãos dadas com outros, eu vou longe.

Mas como uma criança no recreio, o sinal toca, e eu devo voltar para a sala. Não vá longe demais, pensamento, eu preciso de você aqui para uma tarefa menor e mais fácil. Desculpa, eu sei que não é bem onde gostaria de passar seus dias, mas eu peço paciência, só mais um pouco de paciência, e com sorte logo lhe deixo vagar por onde quiseres. De preferência, meus olhos estarão fincados no mar, meus pés na areia, e você, onde acontecer de querer estar.

31.5.10

Sobre o rascunho e seu tempo de vida

Deixei um rascunho. Saí do papel e fui pro mundo, esperando voltar do mundo e seguir no meu papel.

Mas eu já não me encaixava mais - e somente fui a um jantar.

Tentei por uns minutos fazer uma ficção de mim. Mas já me referia a mim como aquele alguém de quatro horas atrás que sentia aquelas coisas. Tentava acessar as lembranças recentes, e usar a escrita, essa escrita, tão parte de mim, que me define. E minha escrita me falhava, e eu me frustrava, porque eu falhava a minha escrita. Já não sinto aquelas coisas, e sinto outras completamente diferentes.

Acho difícil saber o que no mundo de fora poderia ter causado essa mudança, hoje tão radical. Acho que foi no mundo de dentro mesmo. Pode uma pessoa taquicardiar seu próprio coração? Como pode em um oceano de calmaria bater uma onda de desespero? De onde vem essa onda? Onde nascem os sentimentos?

E hoje dormirei um pouco assustada.
Com medo desse mundo que não enxergo, sinto.
Que me sente coisas.
Fecharei os olhos então, se eles já estão fechados...