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16.6.11
Mais uma casa, vinho e pedra
E de repente você se vê tomando uns goles de vinho num copo de cerveja do bar da esquina, deitada (praticamente) no chão do que sabe, daqui a bem pouco, será sua casa em muitos outros sentidos além do nome no contrato. Desde o mês passado tenho o nome num contrato de um apartamento no décimo quinto andar de um prédio no Rio de Janeiro. Da janela, vê-se uma pedra grande e tenho o privilégio das copas das árvores me fazendo companhia na altura dos céus. Tenho velas, escorredor de pratos, uma espátula. Já me acostumei com o caminho até o metrô - escapo dos buracos na calçada. E de repente, num momento como agora, me vejo tomando vinho nessa que, um dia, será minha casa em muitos outros sentidos além do meu nome no seu contrato.
11.5.11
Uma diferença
Aí a gente larga tudo e recomeça - são tantas as fases do recomeço. A gente se perde, e até se encontrar o caminho é pedrada. Se somos em relação a algo outro, quando quase tudo ao seu redor fica, ou vai, é inevitável sobrar pouco - minto - pouca segurança no que fica. Já previa tudo isso.
Já sabia, sempre soube, já descobri outras quatro vezes na vida, pelo menos, que da vida a gente não foge, ela te segue onde for. Ela me dizia que meu corpo é minha casa, dessa não adianta fugir, então quando precisasse de repouso que me quietasse dentro de mim. Já me senti em casa longe de tudo conhecido, já estive desconfortável sob as sombras das mesmas árvores que me viram nascer.
Mas há diferenças, cansei de achar que tudo é o que eu levo e a alegria é fácil onde eu quiser que seja. Pode ser, mas uma cidade não é igual a outra, e como combinações quase químicas eu+cidade, cada cidade com suas propriedades, formamos um composto diferente. Hoje pela primeira vez eu vivi uma diferença, uma simples alegria carioca, que poderia um dia ter sido uma alegria brasiliense ou uma alegria novaiorquina, mas nunca essa alegria carioca da tarde de hoje. Voltava da médica, decidi pegar um taxi pois o motivo da visita era um machucado no pé, herança de um carnaval pernambucano que agora já passou faz tempo. O motorista perguntou se iríamos pela praia, eu lhe pedi que sim, o dia estava bonito. Ele escutava João Donato, por consequência eu também, e então a música não era minha - viu? Era a música dos outros que agradava os meus ouvidos (eu jamais colocaria bossa nova pra tocar, que clichê). E o fim do dia, o mar e o Rio de Janeiro ao som de João Donato foram um tapa na cara e me lembraram que escolhi passar por todas as dores e alegrias dessa vida, que não vive sem mim, no Rio de Janeiro, e que ela será diferente, mais quente e ensolarada, por se passar aqui, no Rio de Janeiro.
Já sabia, sempre soube, já descobri outras quatro vezes na vida, pelo menos, que da vida a gente não foge, ela te segue onde for. Ela me dizia que meu corpo é minha casa, dessa não adianta fugir, então quando precisasse de repouso que me quietasse dentro de mim. Já me senti em casa longe de tudo conhecido, já estive desconfortável sob as sombras das mesmas árvores que me viram nascer.
Mas há diferenças, cansei de achar que tudo é o que eu levo e a alegria é fácil onde eu quiser que seja. Pode ser, mas uma cidade não é igual a outra, e como combinações quase químicas eu+cidade, cada cidade com suas propriedades, formamos um composto diferente. Hoje pela primeira vez eu vivi uma diferença, uma simples alegria carioca, que poderia um dia ter sido uma alegria brasiliense ou uma alegria novaiorquina, mas nunca essa alegria carioca da tarde de hoje. Voltava da médica, decidi pegar um taxi pois o motivo da visita era um machucado no pé, herança de um carnaval pernambucano que agora já passou faz tempo. O motorista perguntou se iríamos pela praia, eu lhe pedi que sim, o dia estava bonito. Ele escutava João Donato, por consequência eu também, e então a música não era minha - viu? Era a música dos outros que agradava os meus ouvidos (eu jamais colocaria bossa nova pra tocar, que clichê). E o fim do dia, o mar e o Rio de Janeiro ao som de João Donato foram um tapa na cara e me lembraram que escolhi passar por todas as dores e alegrias dessa vida, que não vive sem mim, no Rio de Janeiro, e que ela será diferente, mais quente e ensolarada, por se passar aqui, no Rio de Janeiro.
20.3.11
Um pensamento e um sentimento
Na enseada de Botafogo penso que a vida não é mesmo pequena, e me aperta a boca do estômago.
20.2.09
Nova Iorque, o Universo e Nós
Acabo de chegar em casa, tenho por volta de uns 75 ml de vinho tinto na garrafa. Agora foi pra taça, e eu literalmente molhando o bico. Um amigo deixou algumas garrafas de vinho barato aqui, para depois buscar. Eu guardei por uns 3 dias, até quando ele me disse que, em situações de emergência, eu me sentisse à vontade para abrir uma garrafa. Não só não durou muito, como nesse momento eu ainda precisava de mais. Mais de 75 ml, com certeza.Voltei de um passeio mágico, ao mundo de Antony & the Johnsons, o grupo de Antony Hegarty. Ele leva a bandeira da androgenia, do sofrimento profundo e da alegria, também. Entre um buraco-negro e outro, pergunta se sua lanchonete preferida ainda está na rua 43.
Antony é controverso, não conheci ninguém que gostasse dele como eu. Mas hoje eu estava em casa. Não sabia o que esperar do público; apenas sabia que seus shows estavam esgotando ingressos pelo mundo, e me perguntava quem eram essas pessoas esquisitas que gostavam da sua voz esquisita e suas músicas esquisitas, também. Esse foi talvez o público mais diverso entre os shows que tenho assistido aqui. Me impressionou o número de pessoas mais velhas, alguns com seus filhos. Gente que eu não esperava gostar do esquisito como eu. Gente que é gente até o último fio de cabelo, com quem eu sentei, ouvi, e chorei. Choramos, todos.
Eu sempre o escutei com uma pontinha de culpa. Eu deveria é estar ouvindo Ivete e dançando. Mas cansei de passar desodorante em sovaco suado fedido. Ao ouvir hoje pela primeira vez as músicas de seu disco novo, eu senti. A música dele é como estar numa floresta encantada. O mundo criado por ele, por aqueles instantes enquanto a música é tocada, nos mostra fadas e monstros.
Como o nosso. O meu, pelo menos, é assim. Minha vida é linda e aterrorizante, ao mesmo tempo. E é na essência do terror, do medo, e da vida que surge a alegria singela de estar vivo.
E, pra quem está contando quantas vezes eu uso as mesmas citações em anos de blog, aí vai uma velha conhecida nossa:
"Provo que a mais alta expressão da dor
consiste essencialmente na alegria"
Augusto dos Anjos
Como o nosso. O meu, pelo menos, é assim. Minha vida é linda e aterrorizante, ao mesmo tempo. E é na essência do terror, do medo, e da vida que surge a alegria singela de estar vivo.
E, pra quem está contando quantas vezes eu uso as mesmas citações em anos de blog, aí vai uma velha conhecida nossa:
"Provo que a mais alta expressão da dor
consiste essencialmente na alegria"
Augusto dos Anjos
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