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7.2.11

Ofereço-me a ti, ou uma homenagem à auto-estima

O máximo que posso te oferecer sou eu. A única questão é se eu e você me acharemos suficiente. Hoje, acho triste pensar em quem nunca experimenta na vida essa sensação de bastar. Não é de auto-suficiência que falo, não espero não precisar de ninguém na vida - inclusive espero precisar, ou aceitar outros, cada vez mais. Falo de auto-estima, de gostar do que tens, do que tenho, pra oferecer: do que sou. É muito fácil acreditar que outro algo, isso, ou aquilo lá, sejam necessários para que eu me torne uma pessoa boa, correta, interessante, ou qualquer característica que julgares desejável. O cansativo é perceber que isso muda para cada outro, e cada um desses outros vai ter uma opinião de como deverias viver a tua vida. Acho que é o que eu descobria há um tempo atrás sobre como vidas diferentes são vividas de maneiras diferentes; e faltava um pouco dessa generosidade, que descobria para os outros, comigo. Minha vida jamais será igual a tua, e eu vou fazer e falar muita merda ainda pra você, na sua opinião.

(Isso tudo é porque sou muito influenciável, a blessing and a curse. Minha terapeuta acha ótimo e diz que sou uma paciente excepcional - talvez ela fale isso para todas - porque ouço e considero tudo o que ela tem a dizer. Mas outras vezes isso me faz duvidar tanto de mim que deixo de ser quem sou, gostar do que gosto. E ontem me lembrei, quando saí pra dançar ao som de um dos melhores piores DJs que já encontrei, e raras vezes me diverti tanto. Talvez o certo teria sido detestá-lo. Mas é que, agora sei sem dúvida alguma: sou assim. Eu gosto do que eu gosto. Há quem diga que falta uma veia crítica em meu corpo, mas prefiro assim. Não é melhor ser alegre que ser triste?)

Esse medo pode ser muito paralisante, é o cisne-branquismo, o perfeccionismo inatingível. E cansativo. O bom dele é a dolorosa descoberta de que jamais agradará a gregos e troianos, como dizem por aí. Que tuas trevas para alguns são céus para outros, então só posso confiar no que diz meu instinto - e olha, para mim, ele é quase sempre acertadíssimo. Ninguém melhor que ele para me dizer do que gosto e do que não gosto, o que quero e o que não quero. Então, inevitavelmente, o foda-se tudo continua sendo meu nirvaninha pessoal - posso não agradar a ti, mas é isso que tenho a oferecer. Eu. E vou re-descobrindo belezas escondidas, reafirmando minhas posturas, como é delicioso se re-descobrir tantas vezes, se re-conhecer talvez muito mais próxima da pessoa que gostaria de ser. Pode parecer óbvio para você, mas eu tô aqui achando isso tudo bonito demais: é um se jogar pra ver se cola - toda vida é assim? E eu acho que eu sou bacana, só posso confiar que eu bastarei, por agora e enquanto durar, para mim e para você.

1.2.11

Uma incerteza

Quero aquele cerne não-afetado de volta, mas será que era ilusão?
Às vezes sinto aquela pérolazinha dentro de mim, e a acho brilhante independente de qualquer outra coisa (e transformo mais grãos e grãos em pérolas). Outras horas, como essa (a uma hora da manhã), sinto que não tem nada de sobra aqui dentro, minha alegria e tristeza são como os ventos que batem por aqui, e viro eu inteira um dente cariado hiper-sensível que sente o frio até os ossos, se é frio que faz do lado de fora. Altíssima condutividade, eu, quem diria.

É porque não sei direito de que sou feita. Ou às vezes me esqueço. Veja bem, é difícil lembrar-se sempre, pelo menos pra mim, que sou feita do que sou. Eu nasci meio sem saber, achei certezas falsas em vários pedaços do caminho, julguei ter me libertado com a leve falta delas, e então surge um inesperado e bonito pilar nessa incerteza. Mas até ela se vai, com pequenos enraizamentos acidentais por aí - ops, criei raiz! Eu era algo, ou achava que o era, depois o desconstruí inteirinho, e sem querer acabei meio que construindo outra coisa qualquer. Que agora será posta à prova: olha só, vou voltar pro lugar de onde vim. E não sei o que do novo resistirá ao velho.

13.1.11

Estilo


Um dia desses me peguei pensando menos (admito) daqueles conhecidos meus, da minha idade, que ainda não saíram da casa de seus pais. Hoje, enquanto eu lavava a louça, olhava para o quintal pela janela. Entre nós e nossos vizinhos foi feito um acordo não-falado sobre como seria a decoração desse nosso pequeno espaço comum, e nosso quadradinho concretado agora abriga uma coleção de cadeiras velhas pegas do lixo (além de um manequim quebrado vestido de saco de lixo). Depois das seguidas nevascas, elas foram enterradas e desenterradas algumas vezes: hoje parecem vítimas de um furacão(zinho). Pensei em muita gente que talvez não gostasse de morar nessas condições, onde a maior porcentagem da mobília veio da rua, onde tem um cantinho atrás da pia que ninguém ousa limpar, e tudo bem - todos seguem. Alguém poderia pensar menos de mim.
Para a minha vida, não vejo outra alternativa. Então entendi que, para outros, outras alternativas. Simples, mas complexo. Pensava no tanto que, calada, mascarada por esse ar de compreensão que aprendi ser tão socialmente bem-aceito, julguei modos de vida de tantos outros. E foi em um segundo, entre lavar uma panela e uma caneca, que pensei: mas se as vidas são diferentes, por que haveríamos de vivê-las igual? Não que nunca tivesse pensado isso antes, provavelmente já proferi tais palavras nessa exata ordem - é que essa frase vem de brinde com a cara de compreensão. E meu lado boa-moça acaba de morrer um pouquinho aqui dentro de mim, como é difícil admitir nossas incompreensões e julgamentos.


Mais uma vez, o perigo da história única. Muitos talvez não saibam que, aos 19 anos, descobri a mortalidade humana, ao reconhecer um caroço na mama esquerda da minha mãe como câncer. E que com 22 anos a vi parar de respirar.

(Assisti ao filme 127 horas e fiquei chocada com uma coisa, a singularidade da experiência vivida pelo personagem principal - se não souber a história na qual o filme foi baseado não siga a leitura -; são poucas as pessoas que sabem a sensação de cortar seu próprio tendão do braço com um canivete cego, e me encantou a constatação do autor da auto-cirurgia de como aquele tinha sido o momento mais feliz da sua vida, e como lhe faltavam palavras para descrevê-lo. Algo como um país não saber como chamar uma presidenta mulher - não há palavras para acontecimentos tão únicos, feliz ou infelizmente. E invejei o acontecimento extraordinário, triste, mas extraordinário, da vida desse escalador. Até olhar ao meu redor e perceber que talvez eu tenha sido única, no meu micro-universo, a ter presenciado a morte de uma pessoa, infortúnio ou não. Todos somos feitos de, não uma, mas várias histórias únicas.)

E eu saí de casa, porque casa não havia mais.

Mas para outros há casa até hoje, suspeito - e isso não cabe no meu entendimento. Parte inveja, parte orgulho, eu hoje não o compreendo, e não sei como seria minha vida com a casa de mamãe e papai. E, sabe-se lá, se tal ainda existisse, estaria eu lá, comendo pão francês quentinho às seis da tarde.

Hoje faço as coisas do meu jeito. Almoço iogurte, janto queijo com bolachas. E como minhas verduras, porque ninguém há de me obrigar a fazê-lo, ninguém além de meu corpo implorando, por favor, mais leveza, cuide-me, alimente-me adequadamente, pois hoje meu corpo é assunto meu. Sempre tive tendências ao estilão meio livre de ser - apesar do que possam dizem outros que conhecem meus costumes quase britânicos com horários e outras responsabilidades. Minha professora achava engraçado que, mesmo sendo amiga de todos na escola, eu não era maria-vai-com-as-outras. Se ninguém quisesse brincar comigo, brincava sozinha. Nem sempre me juntava às crueldades infantis contra as crianças novas. Quando adolescente decidi fazer minhas próprias roupas - havia tecido e máquina de costura em casa, por que não? Minha mãe me ensinou como colocar o fio na máquina e eu pedi que ela me deixasse só de ali em diante. Usando minhas básicas noções de geometria e apanhando um pouco do pedal da antiga máquina, fiz minha primeira saia. Mamãe riu quando viu o resultado, e disse que haviam maneiras muito mais fáceis e amplamente conhecidas no mundo da costura para aplicar um zíper ou fazer a barra mais reta. Mas eu não quis aprendê-las. Minha maneira funcionava muito bem, obrigada. Fiz uma bolsa de lona que se desintegrou em um show. Orgulhosamente carreguei meus pertences até a rodoviária em minhas mãos, e já sabia como deveria reforçar a alça da bolsa na próxima vez.


Decidi parar de comer carne, num dia qualquer em que escolhi largar minha hipocrisia carnívora de lado. Nunca gostei de saber que aquilo que comia era um bicho, mas sempre fui muito boa em ignorar esse fato. Um certo dia do ano passado acordei e decidi que, ao invés de ignorá-lo, responderia a ele. Então tá, não como mais bicho morto, a partir de hoje. E todos vêm me perguntar de onde me nutro das proteínas tão essenciais a mim, e eu não sei. Eu vou comendo o que tenho vontade (e nunca comi tanto feijão, grão de bico e lentilha como agora), inventando minhas receitas conforme a disponibilidade e a vontade. Se tenho arroz e abóbora, faço uma abóbora recheada com arroz. Sempre coloco azeite e sal (jogo um parmesão ralado por cima) e fica tudo bem.


Como diria uma amiga, aqui nesse recinto trabalhamos com a realidade. E nossas realidades, tão distintas, pedem por respostas distintas. Somos todos free-style, à medida em que não podemos responder, de maneira alguma, aos acontecimentos nossos no estilo de outro alguém.

18.12.10

Presente de dezembro


, e quanto mais eu eu acho nesse crescer pra dentro, quanto mais presente, mais sinto as ausências? Ou é só o mês de dezembro (todo ano tem esse mês que me entra rasgando, o dezembro)? Ela me disse que é o frio, e eu até acredito. Não se vê mais pele, nem cores. A noite chega de tarde ainda. O quão triste é a escuridão das quatro e meia?

(O mercado do fim do dia, na Union Square, está cheio. As pessoas compram as verduras que faltam para o jantar. Uso o banheiro, tenho várias camadas para despir. O ar está frio, mas cheira a churrasquinho. Carrego uma sacola com minha bota nova, ando com amigos, desvio dos pedestres apressados. Sou uma delas. Nova Iorque é suja e linda - agora brilhante com luzes de natal. Em Manhattan são brancas, elegantes e suntuosas; aqui nos projetos habitacionais em frente a casa são coloridas e extravagantes, presas em suas pequenas janelas. Saio de casa e sempre abro um sorriso ao vê-las - que símbolo bonito. Está tudo bem.)

Já me disseram que estar presente dá espaço para sentir as ausências.
Olha que curiosa essa história de limites e definições: passei tanto tempo aprendendo a me definir pelas minhas ausências e descobrir nelas minhas presenças, e agora parece que voltei para o ponto de partida. 
(Um cachorro correndo atrás do próprio rabo)

Do mar vi a ilha, agora da ilha vejo o mar.
(Vontade de terminar aqui com tudo é mar e ilha)

Acho que só sabendo quem se é pra saber o que te falta. Não?
(Repararam nas várias interrogações?)
Então essa dorzinha de ausência é meu troféu de identidade?

21.10.10

Sobre o não-pertencimento - II

Um dia contei a vocês que vim desavisada. Ainda com um boa dose de tolice adolescente (daquela que nos faz corajosos e donos de nós quando, na verdade, ainda nos falta um bocado dessa propriedade), saí de casa como se soubesse onde essa decisão me levaria.

Eu só queria sair.

Não sentia nada. Não sentia medo, não sentia dor, não sentia alegria também. Foi tudo muito simples: um avião de lá me trouxe, com uma pequena porcentagem de minhas roupas e objetos pessoais. Precisava de passaporte e dinheiro, só. Poderia bem estar indo passar um final de semana, e logo depois voltar para tudo que conhecia.

Mas não sabia que encontraria outros pedaços da minha identidade, que minha vontade de sair de lá permaneceria por tanto tempo. Eu, uma nostálgica por natureza, orgulhosa e cheia de fortes laços, os quais sempre julguei necessários à minha vida. Não julgava possível ser outro alguém que não fosse aquela.

Sabia que carros não me agradavam, só não sabia o quanto. Sabia que sentia medo, só não sabia o quanto. Sabia também o que era amor, só não sabia seu tamanho. Sabia quem era eu, só não sabia tudo.

Hoje sei o que são saudades. Hoje sei o que é propriedade (e é uma balela). Aprendi que gente é gente, em qualquer lugar do mundo. Que qualquer lugar do mundo pode ser meu também, apesar de nenhum ser. E que, ciente do fato de que nunca sei onde os poucos passos à minha frente me levarão, posso tomar decisões desinformadas conscientemente.

Às vezes adoraria poder voltar.

Mas outras horas esse oceano de não-saber, no qual encontro mais estabilidade que em qualquer ilusão de certezas, me instiga, e me enche de vontade de me jogar nele. É, acho que vou me jogar no oceano.

Agora sinto. Sinto tudo. Sinto saudades do que deixarei, pois só agora sei o tamanho desse passo, sem volta. Não deixo uma cidade - me deixo um pouco. Um pouco volátil, esse pedaço não esperará por mim, sei bem. Sinto medo do meu destino, pois não sei o que me receberá. Espero que seja de braços bem abertos.

(Uma sensível-insensível?)

Gostaria de fingir ser uma escolha, meu texto seria muito mais fofinho se assim fosse. Não é escolha não, hoje só tenho um jeito de ir: conscientemente não sabendo.

16.9.10

Correndo atras do que?

Eu estou correndo atras de varias coisas, ao mesmo tempo. Isso as vezes e meio confuso, entao os tombos parecem naturais.

Quero mais diversao, mais ainda, sempre mais. Nao gosto da suspeita de que sao aqueles dias nas ferias, com os pes fincados na areia da praia, expressoes maiores de mim mesma (o que "mim mesma" quer dizer, eu nao sei).

O trabalho me cansa e me instiga, ao mesmo tempo. Eu quero abandona-lo, mas nao quero. Quero descobrir tudo sobre o pensamento e os sentimentos desses novos professores, e tenho a ousadia de me entristecer por saber que jamais conseguirei faze-lo. Me preocupo e espero que as rugas nao sejam explicitas demais, ela nao pode perceber!, e, ao me preocupar, paro de ouvir. Entao, espero saber tudo, mas nem ouvir eu ouco mais. Mania de querer as coisas faceis.

Mas eu nao quero nada facil, sou forte, guerreira. E desejo que um professor entre em minha sala nesse segundo e me diga exatamente o que quero ouvir. Mas como eu sou cabeca-aberta, pode ser com suas palavras.

Adoro o prazer de desvendar terrenos novos, como essa ilha. Dominar algo fora do meu dominio, nao foi facil. Mais dificil ainda e voltar aos meus dominios e nao ser mais deles. Nada mais me embala como o colo de minha mae um dia me embalou, e isso me entristece, mas me enche de coragem. Se nao caibo em nada, escolherei onde nao caber, pra encaixar direitinho. Porque eu quero a facilidade de estar em casa, e o desafio de sair dela. Quero desvendar o que ninguem jamais ousou se perguntar, mas quero quem me pegue pela mao e mostre nao so o caminho, todas as respostas. Quero ser maravilhada por mais muitos dos lugares e pessoas como os que conheci, mas meu destino sempre acaba sendo os meus. E nessa luta de identidade, quereres confusos e falta de chao, aprendi uma coisinha. Daquelas que voce acha que ja sabia.

Aprendi que dessas coisas todas, nada importa muito alem de uma delas. Os meus. Com toda a licenca da propriedade, eu os chamo de meus. Como chamo a microbiota do meu intestino de minha. Como chamo meu intestino de meu. Nessa batalha em descobrir que sou eu, descobri quem e meu. E sei que nao existo sem essas partes; que casa nao e lugar, e nem a minha pessoa. Sao as minhas pessoas, que me fazem sentir em casa mesmo fora dela. E o olhar em cima de mim, o riso acompanhando a palavra.

Hoje, acho que eu somos nos, e casa sao voces. E um ato de gentileza mutuo: voces se dao, eu me doo.
E sou mais feliz por isso. :)

24.8.10

Sobre o não-pertencimento

Saí de casa como se soubesse o que fazia. Levei comigo a tranquilidade de todos os caminhos terem volta.

Mas não têm. Eu não sabia, e não têm. Fui mesmo assim, e estando de volta, me deparo com a inevitabilidade da vida, desse caminho que aos tropeços vamos, sim, traçando.

É uma sensação doce-azeda, como tantas outras. É doce, muito doce, ver constâncias nessas inconstâncias; ver mudanças onde clamava por mudanças (mas meus olhos míopes não me permitiam enxergar - elas estavam acontecendo!). É azedo, muito azedo, ver mortes. É azedo voltar pra casa e se deparar com a sua casa, e tudo estar exatamente no lugar que estaria na sua casa, mas ela já não te abriga. Eu me pergunto: será que algum dia voltarei a pertencer?

Fico triste, porque acho que a resposta é não.

22.4.10

A minha cidade


De todos os lugares no mundo, foi Brasília a dona da minha primeira respiração.

Eu gosto da casualidade (será? ou falta absoluta de casualidade?) desse fato. Eu gosto das outras vidas que poderiam ter sido, e não foram. Quando criança, eu imaginava como eu seria se tivesse dado o primeiro ar da minha graça em Paracatu, ou no estado de Ohio, Virginia ou Novo México, nos Estados Unidos. Quando adolescente, me perguntava se faria parte de algum club dos nerds em alguma high school qualquer, e ao invés de interrogar incessantemente minha mãe sobre suas experiências naquelas terras antes tão distantes, estaria interrogando meu pai sobre seu passado no exótico Brasil. Poderia ter me feito gente na Alemanha, se por lá minha mãe decidisse ficar. Eu poderia ter sido tantas outras pessoas...
E a viagem se prolongava até a certeira dúvida final: o quanto minha experiência teria que ser diferente para que eu deixasse de ser eu?

E sempre concluía que em Campinas já seria uma outra Juliana. Eu sou então um tanto de Brasília.


Quando hoje me vejo tomando tantas das decisões que meus pais um dia tomaram, o misticismo ao redor delas some, e tudo parece tão arbitrário - quer dizer que eles não sabiam direito o que estavam fazendo? Não estava escrito em estrela nenhuma.

E no segundo seguinte, uma satisfação imensa preenche o vazio que essa falta de sentido maior tentava estabelecer. Eles não sabiam, mas ainda assim o fizeram. Tomaram uma decisão, e essa decisão foi que eu me criasse na nova capital. Então a responsabilidade sai dos braços dos astros e cai inteira nas mãos daqueles que me fizeram. Nos estabelecemos todos em Brasília, na não-óbvia Brasília.


E nela aprendi a viver. Aprendi a caminhar por becos, temer cachorros fugidos, e encontrar terra vermelha no caminho para a escola. Cresci ao som de pássaros e cheiro de fumaça de folhagens queimadas no fim de tarde no Lago Norte. Brinquei na beira do lago, e instalamos uma tabela de basquete no final da rua. Fui dona de todas as casas ao redor da minha e ainda me lembro dos azulejos de todas as suas piscinas. Na casa da dona Nair eu tomava chimarrão, a tia Valéria fazia os melhores doces de Minas. Nas férias, íamos todos visitar as famílias, porque família nenhuma era de lá.

Não tinha sotaque, não tinha cultura. Não tinha jeito certo de fazer nada.

E ainda assim lá eu me criei, e muitos outros se criaram ao meu lado. Vivemos entre o verde (ou marrom) sufocantes da natureza ainda escancarada e uma vida borbulhante nascendo em seus cantos. Uma universidade nova era o quintal da minha casa, e lá eu encontrava os móveis que um dia mobiliaram meu quarto. Lá eu aprendi a pensar em coisas que nunca antes havia pensado, e o fazia caminhando em direção ao ponto de ônibus. A garganta seca, o caminho de terra. Às vezes uma carona, um cheiro de pão francês às seis horas da tarde e uma ponte. Uma escola de música gera tradição, um bar de quarenta anos oferece pouso para a boemia. Na cidade onde mal se vê gente nas ruas, tinha muita vida acontecendo nos habitados espaços entre os já escassos terrenos baldios.

Sem perceber, estávamos nós fazendo cultura, fazendo memórias, moldando quem nos moldava. Em uma cidade onde tudo é novo, a gente fazia novidade. O teatro de onde nada se espera nasce e supera aquele do qual muito é esperado, e dois amigos fazendo música iniciam um movimento. A juventude é a primeira a povoar suas curvas, então Brasília também se torna um tanto de nós.

Imagino serem poucas as pessoas no mundo que podem ter o prazer de ver uma cidade nascer e se moldar, assim, tão rápido, em frente a nossos olhos e bem nas nossas mãos. A propriedade que eu sinto sobre essa cidade não cabe em um texto. Essa cidade é muito minha, e outros brasilienses podem entender.

É uma liberdade (entre tantas faltas dela, que eu reservo pra outro momento) muito bonita.
Com ela, claro, uma responsabilidade grande.

Eu sou a calma e borbulhante Brasília.
E quero muita Brasília, muito bonita, sempre nova, pra muita gente!


13.4.10

Multiplicidade

Olha que engraçado, bem quando me pego conscientemente vivendo a pluraridade toda que sou (tentando negociar, mas acima de tudo, aceitar cada pedacinho dela), me deparo com esse vídeo muito especial, essencial:



Não posso contar quantas vezes eu, ao me apresentar como brasileira, ouvi um intrigado "não parece" em resposta. Nunca antes podia imaginar que isso me incomodaria tanto (ou que ouviria isso tantas vezes). Então fico eu intrigadíssima, e com uma pergunta sem resposta na minha cabeça - "e me diga você então, como são os brasileiros?". Se a conversa no leva até a naturalidade norte-americana da minha mãe ("mas uma brasileira", como ela carregada de sotaque gostava de nos relembrar), é a vez de ouvir um aliviado "tá explicado".

Na cidade, eu era a menina que passava as férias na roça brincando no curral com os meninos da fazenda. Na roça, eu era a menina branquela da cidade grande toda desengonçada ao correr descalça no cascalho e forçada a nadar na represa de camisetão pra não queimar. Mas na cidade eu era também a filha daquela mãe americana, dona dos brinquedos mais espalhafatosos e que ia para festas juninas com os vestidos mais aleatórios do universo, invejando as trancinhas e sardinhas de todas as outras meninas. E lembro, desde criança, da pergunta, consequência desses contrastes:

- Mas, peraí, quem sou eu então?

Um dia, aqui em Nova Iorque, recebi um convite de um cara para conhecer a família dele. Dizia ele que havia tempos que não levava uma garota para a avó conhecer, e estava curioso pra ver como seria dessa vez, porque a última que sua abuelita havia conhecido era branca. Em um segundo entendi quem eu era aqui.

E, como Chimamanda abraçou sua identidade africana, tenho aprendido a abraçar minha latinidade. Fui colocada um rótulo que também me serve (e, diga-se de passagem, minha única história até então não me permitia ver). Mas não é o único. O interessante que tenho descoberto nisso tudo é também não deixar que eu mesma compre a história única minha que tentam me vender.

E o me apresentar como brasileira e me deixar ser, espero contribuir um pouquinho. E exercito todo dia imaginar as outras histórias dos outros, sabendo por experiência própria que todos somos donos de várias. Viver aqui me presenteia isso (além de tantas outras coisas), já que o que nos une nessa cidade-mundo é, exatamente, o fato de termos cada um uma história distinta. Então vivemos, além das diferenças, as similaridades.

8.4.10

Essa tal multiculturalidade

Saber quem se é, uma tarefa difícil.

Sei apenas que a falta do que sempre fui é o que me permite mergulhar nessas águas profundas. Li uma vez  um certo pesquisador falando que morar fora está positivamente relacionado à criatividade. Li em outro lugar que criatividade é achar um uso diferente para algo.

Eu sou forçada a achar usos diferentes para mim.

E também a encontrar utilidade naquilo que nunca antes havia me servido para muito.

Saber disso, desse processo de negociação, tira punhados de culpa das minhas costas. Me dá o presente da compreensão, e atrelada a ela uma gentileza rara.
Saber disso é uma falta de chão. Então eu posso voar.

5.4.10

Meu cabelo ruim é bom

Com uma das minhas inspirações.

Não me lembro quando comecei a chamar meu cabelo de ruim.

Parecia óbvio assumir que cabelo enrolado é ruim. Estávamos fadadas a uma vida de produtos e mais produtos anti-frizz (e um know-how infinito sobre liguinhas, bicos-de-pato e piranhas). Quando a ocasião era muito especial, os cachos deveriam ser alisados, e nós poderíamos, finalmente, ter o cabelo certo (enquanto durasse a escovinha).

Mas me lembro direitinho quando descobri que meu cabelo na verdade era bom.

E me senti uma transgressora. No salão sempre me perguntavam se eu queria alisar, e quando comecei a responder "não" vi muita cara feia. Quando comecei a frequentar formaturas, casamentos e afins com os cachos ainda mais cheios, recebia parabéns pela coragem.

Coragem de assumir, e exaltar, quem eu sou.

Os de cabelos lisos podem não entender, mas essa descoberta é menos óbvia do que parece. Ela vem com a segurança que (ainda bem) ganhamos ao passar dos anos. Partiu do cansaço de ter sempre o cabelo errado, e lentamente evoluiu para o orgulho. Meu cabelo hoje tem mais graça. O carinha me disse que meus cachos são lindos, o vizinho sorriu ao me ver sendo engolida pelas madeixas em mais um dia de ventania. Cada manhã me deparo com o que poderia ser uma obra do Edward Mãos de Tesoura, e, hoje, acho engraçado. Os cachos têm personalidade, e não há um dia igual ao outro. As pequenas imperfeições são o que fazem o cabelo todo mais interessante, e eu não troco interessante por simples mais não.

Hoje, meu cabelo só fica ruim quando preso.

1.5.09

Gratidão, Felicidade, Saudade, e mais um monte dessas coisas



Melancólica, feliz, triste, grata, cansada, ansiosa, satisfeita. Que nem gente.

Sou gente há 24 anos completos hoje. Fui gente enquanto o Rei Leão estreava nos cinemas, e eu estive lá com a Neusa e a Catarina, chorando a morte do Mufasa, e voltando do Cine Márcia em direção à rodoviária e o 136. Clube do Congresso, ônibus de cor... verde? Marrom? O grande mistério dos lagonorteanos. Onde tive conversas das melhores da vida com a Cacá, voltando da escola. Depois de comer um enroladinho de queijo e presunto na cantina.

Mas eu gostava mesmo era de enroladinho frito de salsicha. No finado posto Tucano, na BR-040, a parada para a iguaria de beira de estrada era religiosa. A ida à fazenda levava menos de duas horas, e ainda no Núcleo Bandeirante o pacote de bolachas já havia acabado. Passando de Luziânia, as crianças já tinham fome e vontade de fazer xixi. Minha mãe dizia que nossas viagens de carro não passavam de um tour chamado "banheiros do Brasil".

Mas foi no interior da Bahia que eu me assustei. Uma placa pedia às mulheres frequentadoras do singelo banheirinho fedido que, por favor, não façam cocô no chão. Íamos em direção à Boipeba, de ônibus de linha, ônibus escolar off-road, barquinho e depois mais um pouco de chão pela frente. Casa da dona Leumária (?) no areal. Com direito a pé de carambola no quintal.

Como eu e mais gente do meu tipo colhíamos, felizes, quando era época. Carambola, ameixa, jambo, jamelão. Eu e meu pai saímos para o pomar da fazenda com um facão, ele descascava as laranjas e perguntava: "quer com tampinha ou cortada no meio?". Eu, gente pequena mas sabida, sempre quis com tampinha. As opiniões eram divididas entre meus primos.

Era gente já quando meus pais se amavam (aliás, virei gente por causa disso), e fui gente quando deixaram de se amar. Virei outro tipo de gente.

Às vezes nem reconheço a pessoa que te escreve. Acho que ainda estou me acostumando a ser gente sem ir pro açude à cavalo, sem bichinhos de papel-marche da mamãe, sem aula de química no segundo horário, sem pizzas no domingo. Não faço idéia como isso funciona. Como pode caber tudo isso em mim? Se eu pensar que tudo se foi, eu vou um pouco também. Mas eu tenho certeza que não, está tudo aqui em algum lugar. Bem guardadinho, recheado de amor. Boas lembranças e saudades. Mas aí as saudades são muito grandes, e empurram a parte boa das lembranças, e até um pouco da parte boa de ser contemporânea de mim mesma, e eu fico: "mas e aquela felicidade toda?". Não cabe. Na cabeça não cabe. Isso deve ser trabalho pro coração.

Deixa ele. Coração cheio, pronto pra ficar ainda mais.